Citação:
"Ora afinal a vida é um bruto romance
e nós vivemos folhetins sem o saber."
- Sweet Home, Carlos Drummond de Andrade
Sobre o blog:
Narração dos fatos da vida de um universitário, aspirante a escritor de prosa e verso. Nesse passeio, o cotidiano, a amizade, a cidade natal, o amor e temas metafísicos ganham um enfoque literário sob a visão de quem escreve.
Sobre mim:
Nome: João Francisco Amorim Enomoto
Nascimento: 20/10/1984
Idade: 21 anos
Estuda: Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP - Curso Bacharelado em Ciências da Computação
Família: Sandra, mamãe; Lumi, irmã; Pedro, irmão caçula.
Inspirações literárias: Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, João Guimarães Rosa, José Saramago, George Orwell, Clarice Lispector, Machado de Assis, Pablo Neruda, Italo Calvino.
Ouve: MPB, Bossa Nova, Samba.
Gosta: de todos os amigos que tem, ouvir música, sair com os amigos, filosofar, escrever, ler livros de computacao e literatura em geral.
Não gosta: gente egoísta, egocêntrica ou limitada na maneira de pensar.
Lendo: Um livro aqui, outro acolá.
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terça-feira, novembro 29, 2005
Os Livros I
Estava eu indo ao ponto de ônibus, como todos os dias e como sempre. No corpo a bolsa com livros, cadernos, estojo; na mão uma blusa para uma eventual virada de tempo tão comum em São Paulo e um livro que venho relendo no ônibus. E foi pensando nesse livro que eu comecei a divagar sobre a natureza dos livros e de como o tempo tem sido injusto com eles. Hoje em dia as pessoas, acredito eu, preferem muito mais programas instântaneos, que fornecem uma diversão rápida e passageira a preços mais populares. Ou mesmo aquilo que não exija tanto o esforço de se ler, ou ainda aquilo que não tenha de se ler, ou ainda tem aqueles que não sabem ler e portanto não sabem o quão prazeroso um livro é.
Esquina da avenida Angélica com o cruzamento da minha rua, que mais adiante tem outro nome (caprichos de São Paulo). Perto da esquina, um ambulante vendendo CDs de música. Eis então que eu pensei "Taí, as pessoas hoje em dia preferem comprar um CD a dez reais de música popular a ler um livro". E cá entre nós, a qualidade da música atualmente tem caído a níveis alarmantes, um fenômeno observado de uns tempos para cá, sempre há uma nova moda. Mesmo assim, é muito mais interessante para um transeunte comprar um CD de música desses a dez reais do que comprar um livro. Talvez até o livro tenha adquirido uma conotação negativa, algo que somente gente letrada e que gosta de estudar (meu Deus, existe esse tipo de gente no mundo!) realmente goste de comprar.
Aquém dessa conjectura toda, uma verdade se instalava todos os dias no ponto de ônibus onde todos os dias eu me encaminho a minha faculdade: o vendedor de CD já citado, um vendedor de livros de sebo (daqueles um pouco mais conservados), um artesão de brincos e bijouterias diversas e uma senhora que vende seu café e suas tapiocas (que um dia hei de experimentar). Junte-se ao cenário as pessoas que esperam o ônibus. E esse seria mais um dia como outro qualquer, com uma conjectura qualquer também.
Porém, se fosse um dia qualquer não mereceria ser escrito aqui. Pelo menos não depois dessa introdução e de um título tão enigmático. Pois bem, alguns minutos de espera no ponto por algum ônibus e eis que eu vejo um, dois carros da polícia metropolitana. Passavam devagar, olhavam para as calçadas como a procurar algo. Em seguida, passam uma van e um caminhão, com vários sacos brancos amarrados. Não é necessário ser muito esperto para ver que eles estavam atrás de vendedores ambulantes. Os vendedores que o digam: de repente estavam todos brancos de pavor, sem saber onde colocar os seus respectivos produtos. Um a um os políciais saíam dos carros, como se fossem uma polícia especial de outrora e caminhavam sadicamente em direção ao comerciante de CD. Muito alvoroço no ponto, algumas pessoas impressionadas com a cena e outras indiferentes, esperando o ônibus. Enquanto apreendiam as mercadorias do pobre coitado, os outros ambulantes juntavam como podiam suas coisas, numa tentativa de talvez salvarem alguma coisa; correr da polícia também não adiantaria. Alguns dos homens e mulheres da lei passeavam pela calçada e viam os ambulantes. Apenas olharam. Aconselharam aos ambulantes que fechassem seus comércios por aquele dia, pois a fiscalização (claramente) estava passando por lá e não poderia liberar ninguém. Mas uma piedade que foge do divino e cai na Terra salvou os seus produtos: os livros, as bijouterias, as tapiocas. Nesse meio tempo, jogavam as mercadorias e a barraca do vendedor de CDs em cima do caminhão, para se juntar a outras mercadorias ilegais. Nesse meio tempo, o atrapalhado vendedor de livros juntava atrapalhadamente suas mercadorias. Algumas pessoas no ponto, percebendo seu nervosismo, ajudavam o pobre homem (mal sabe ele que mesmo que não fisicamente eu o ajudava também). A moça das tapiocas também recebeu ajuda e em breve todos estavam com tudo empacotado para uma fuga segura. O homem meio que sem graça, aflito, assustado e qualquer outro sentimento que se adequasse ao momento soltou apenas um "Obrigado gente!".
Voltamos então à conjectura. Qual foi afinal a moral dessa história tão particular no dia-a-dia de um estudante universitário? Talvez que a justiça ainda exista. Ou que as pessoas ainda acreditam nos livros, que mesmo as mãos da justiça acreditem que um livro é importante, assim como a arte em geral e o caráter de um comércio que é feito pelas mãos de gente humilde que só quer ganhar o seu dinheiro. Não que eu tenha ficado triste pelo comerciante de CDs, mas sei que o comércio deles era o mais ilegal de todos, afinal CD pirata é algo que prejudica os artistas que lançam o CD, etc etc. Mas além disso, gravar CDs de música é algo que gera lucro bem rápido, não há de se demorar para que aquele homem voltasse a armar sua banca ali.
Talvez tenha tudo sido um grande acaso, talvez as pessoas tenham ajudado o vendedor de livros por mera compaixão, e ajudariam quem quer que precisasse. Talvez a polícia tenha escolhido ao acaso aquele que daquela região da avenida Angélica teria sua mercadoria apreendida. Talvez. Eu prefiro acreditar que nada disso foi um acaso e sim uma manifestação de que ainda existe uma justiça invisível, que nem tudo está perdido para a literatura e que talvez as pessoas abram seus corações para um universo paralelo que nos dá lições de viver todos os dias. Talvez, talvez...
Postado por Little John às 22:05.